Tenhamos duas pessoas, dois alunos. Temos de escolher qual o mais apto a desempenhar um cargo. Um dos alunos tem uma boa média, o outro tem uma na norma. Fim.
Sem mais por onde escolher, é mais provável que o aluno que apresenta a melhor média seja o mais apto. Mas este cenário é irreal, não existe tal coisa como “sem mais por onde escolher”.

Que fazes tu nos teus tempos livres? O que gostas tu de fazer?

É uma pergunta que só por si dá para inferir muita coisa.

E impossível um individuo tirar 20’s a Análise mas ser inapto a matemática, mas a um aluno que tira entre 10 e 15 já nada é inferível. Imagine-se um individuo que vai ao mínimo de aulas, não faz um exercício, e ainda assim tira 10. É um individuo apto! Pode ser um bom profissional, pode ser um preguiçoso muito dotado, não se sabe, a nota é inconclusiva.

As probabilidades contam-nos que indivíduos incorrespondentes são uma minoria, que os alunos com notas baixas tendem a ser incompetentes, e eu concordo, como uma medida de catalogação coletiva, lei dos grandes números. Mas quando meço um individuo, pessoalmente acho que a nota é absolutamente o último critério a utilizar.

Descubra-se que dos dois alunos inicialmente falados, o aluno “normal” tem uma vida peculiar: Inventou um autoclismo que dispara com um bater de palmas. Nas compras lê os rótulos de tudo, e não só lê, entende. Mantém-se informado sobre a atualidade, não lendo o Facebook, mas sim jornais académicos. Tem muito mais trabalho do que o necessário, mas não se rala porque gosta do que faz.

Já o aluno dotado de boa média segue uma vida normalíssima. Acorda, come, estuda, sai, volta, estuda, joga, vê a serie, dorme. As suas motivações para trabalhar são fazer dinheiro para viajar, comprar um computador melhor, e pensar em arranjar casa.

Um vive com uma paixão, outro vive com outra, nada de errado nisso. À medida que se descobriu mais, a linha que separava um do outro começa a ficar difusa. Ambos começam tem o seu valor, sujem novas incógnitas.

  • Será que o “bom” vai trabalhar intrinsecamente?

  • Será que o “médio” consegue resolver coisas tão complicadas como o bom?

  • Será que o bom quer aprender?

  • Será que o médio se vai conseguir dedicar a uma tarefa?

  • Será que o bom faz um pingo mais do que o necessário?

  • Será que o médio consegue fazer apenas o necessário?

Não sou nenhum floco de neve cujo cérebro me incha a cabeça, considero-me capaz de resolver os problemas que me tocam. Ando numa universidade, onde quase todos também o são, e ainda assim somos todos muito diferentes.

Acredito que mais importante que ser capaz, é ser racional, inteligente. Inteligência não é capacidade, é o bom uso da mesma.

Eu estou na Universidade por um motivo, e esse motivo não é acabar com um diploma e um numero que me qualifique perante um empregador. O motivo é senão aprender e desenvolver-me como individuo, e focar-me nas notas nem sempre corresponde com este objetivo. Pense-se numa cadeira arbitraria e fica claro. O que seria feito de forma a maximizar a aprendizagem a qualquer custo?

Arranjar um bom grupo de trabalho?
Gastar 5 dias a fazer aquela parte do trabalho que é quase como a outra?
Ficar 2-3 dias a fazer o relatório para tirar a cotação máxima?
Fazer todos os testes de todos os anos anteriores caso saia algum duplicado?

É importante saber trabalhar em grupo. É importante acabar o que se faz. É importante saber explicar aos restantes o que foi feito. É importante ganhar prática. Mas estas medidas não maximizam a aprendizagem, maximizam a nota.

Já tive que me preocupar com a minha média para chegar onde estou, agora que vá por ai abaixo que me é indiferente, não vivo em função desse numero.

Quer isso dizer que estou a trabalhar menos? Não, pelo contrario. Gasto a larga maior parte do meu tempo a estudar, por gosto, mas sou eu quem define o que eu estudo, não os critérios de avaliação.

Ainda que a sociedade viva em tempos estranhos, somos humanos e não números. Se um potencial empregador não tem tempo ou paciência para ver mais do que um numero, será que quero trabalhar para ele? A resposta fica a critério do leitor.