Na muy nobre Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa, existe a tradição de realizar cadeiras nas ferias entre semestres. Tipicamente são como que um passatempo para nos manter minimamente ativos.

No primeiro ano aprende-se que importante e urgente são distintos; que erasmus é muito fixinho e que devíamos todos de ir; e a fazer continhas numa ferramenta proprietária. (dica: Quem usa Linux pode dizer que o LibreOffice é o Excel, não é que os professores saibam distinguir). Não foi ótimo, não foi terrível. 5/7

No segundo ano leva-se uma palmadinha nas costas para se pensar em questões éticas como direitos e o funcionamento das sociedades. Sou totalmente de acordo com a ideia, ainda que a execução não seja bem o nirvana.

No terceiro não se faz nada, mas no quarto aparecem com o foco desta escrita. Empreendedorismo, a cadeira que tira toda e qualquer vontade de querer saber mais do tema; que induz repulsividade, fobia e pânico perante palavras começadas por “empreende”.

Composta por uma serie de palestras e aulas práticas, começa com o tradicional discurso de treinador de balneário “temos de fazer as nossas empresas”, uma conversa sobre sustentabilidade e historias de “sucesso”. Parece razoável. Não era bem o que procuraria, mas reter nova informação tem sempre o seu mérito.

Nas práticas atiramos uma ideia a um professor, e vamos polindo com feedback, esperando que se torne uma ideia um pouco menos má. Isto é feito em grupos de 5, pelo que é inesperado que alguém atire para a frente algo demasiado anormal. A larga maioria das ideias são conceitos desprovidos de inovação, apenas tentam vender algo que já existe, mas num formato diferente.

Traumas

Já se introduziu a boa faceta da cadeira. Uma menos boa seriam as palestras semanais, onde empreendedores com “muito sucesso” debitam opinião como facto. Fosse esse o cerne, mas não …

Aulas praticas, essas sim são as pérolas da cadeira: 2/3 horas de aula que aliadas a 2/3 horas em transportes se traduzem 10-20 minutos de tempo do professor, por grupo. Tempo esse que serve para cerca de… nada de jeito. Serve para os professores se contradizerem, e com sorte para nos chamarem a nós e a quem quer que seja que discorde deles de mentiroso.

Quem sabe não nos calharam as melhor joias na rifa. O nosso professor tinha uma compreensão de Português má e uma de Inglês não particularmente melhor. Ignorando barreiras linguísticas, se por um lado o docente não aparentava estar desmotivado, por outro não conseguia articular duas frases sem enfiar a lógica no caixote.

Andamos de porta em porta a bater em busca de de informação para o trabalho. Solicitamos opiniões reais de pessoas reais que trabalhavam dentro do âmbito da nossa ideia. A dada aula foi convidado outro professor que contradisse o que o anterior tinha dito. Ambos desconstruiram o que tínhamos construido até ai e sem papas na língua chamaram os testemunhos de mentirosos. Resmungavam como que se achassem que estavam num reality show.

Lá fizemos um esforço adicional para como que condizer o mais possível com o que pediam; mudamos substancialmente a ideia, arranjamos custos de fornecedores, aparecemos com excertos de leis, mas de todas as 4-5 vezes acabamos por ouvir o tal professor muito empreendedor a dizer que o nosso trabalho estava mal, sempre com argumentos arbitrários.

Comecei relativamente motivado nesta cadeira; ao fim de nem três semanas já só quero que acabe. Posso não ter os melhores dotes de comunicação do mundo, posso ter apanhado professores particularmente dúbios ou dias particularmente maus, mas o meu parecer atual é que a cadeira é uma piada triste.

As minhas desculpas aos professores que estejam a legitimamente a esforçar-se para transmitir uma boa ideia desta cadeira e vejam o seu trabalho criticado por terem os colegas que tem.

Parte 2. Final da história

Encontramos uma entidade conhecida nacionalmente que disse com toda a claridade do mundo que poderíamos firmar um acordo comercial se aplicássemos a ideia que os professores tinham declarado de fútil. Não tocamos mais na ideia e perante este facto os professores pararam de reclamar, porque aparentemente as ideias são todas más até terem garantia de fazer dinheiro.

Como fazer a cadeira com elegância

  • A técnica do sorrir e acenar é provavelmente o melhor concelho.
  • O moodle tem vídeos moderadamente educativos. Aliados aos resumos que alguém fará das palestras é o suficiente para se passar à cadeira.
  • Não tentem inovar, façam os professores pensar que sim.
  • O critério de sucesso é só e apenas o potencial de lucro.